
Wilson Cano: uma vida dedicada à pesquisa, à docência e à universidade
O professor Dr. Wilson Cano graduou-se em economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1962. Doutorou-se pela Universidade de Campinas (Unicamp), em 1975, com a tese “Raízes da Concentração Industrial em São Paulo” (Baixe aqui) e obteve a Livre-Docência pela Unicamp em 1981, com a tese “Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil” (Baixe aqui).
Em 1986, sagrou-se professor da Universidade de Campinas, vindo a se aposentar em 2011. Desde então, continuou a manter relevante participação como professor colaborador no Instituto de Economia (IE), onde desempenhou papel centralna fundação e consolidação dessa escola como referência nacional e internacional no ensino de economia.
O professor Cano organizou e publicou 20 livros; é autor de quase quarenta artigos em periódicos; e 37 capítulos de livros. Como pesquisador, exemplificou o caráter imperioso da opinião fundada e do trabalho meticuloso com a informação. Em projetos de pesquisa de maior extensão, sempre agregou equipes interdisciplinares, compostas por economistas, arquitetos, urbanistas e geógrafos.
No exercício da docência de graduação, sempre manifestou preferência pela disciplina de “Introdução à Economia”, que considerava não ser tarefa para professores novatos. Isto porque não se trata apenas de discorrer sobre temas ou apresentar conceitos, mas alertar os jovens ingressantes acerca da responsabilidade do economista em países subdesenvolvidos. Marcados por profundas desigualdades econômicas e sociais, esses países oferecem desafios de toda ordem e a necessidade de construção e implementação de políticas públicas que concretizem maior oferecimento de serviços essenciais à população e redução das desigualdades de repartição de renda e da riqueza.
Como professor da pós-graduação, nos anos recentes, os estudantes se beneficiaram de seus conhecimentos, de seu entusiasmo, que costumava se traduzir em várias aulas extras, nas disciplinas de “PolíticaEconômicae Desenvolvimento Regional” e “Desenvolvimento Econômico” (assista). As exposições eram detalhadamente preparadas. A intensidade de leitura indicada pelo professor revelava pluralidade teórica, abrangendo os grandes mestres, notadamente Keynes, Kalecki, Schumpeter e Marx. Bem como os grandes autores brasileiros (Celso Furtado, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Sérgio B. de Holanda e outros) que pensaram o país.
Outros resultados de sua docência refletem na orientação de pós-graduandos. Ao todo, foram 31 teses de doutorado e 33 dissertações de mestrado, além de participações em bancas na Unicamp e em outras instituições brasileiras. Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, encontram-se alunos seus.Cabe ainda destacar sua atividade acadêmica como docente em cursos nos escritórios da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal/Nações Unidas) no Brasil e em países da América Latina, no período 1966-1980.
O sonho de uma escola alternativa de formação de economistas
A circunstância feliz – em um momento de repressão política – da implantação de uma universidade pública em Campinas, sob o comando do Prof. Zeferino Vaz, permitiu que um curso alternativo de economia se encaixasse no projeto que desenhara o eminente reitor de um Departamento de Planejamento Econômico e Social (Depes). Implantado em 1968, o Depes viria a integrar o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e a formar o Instituto de Economia em 1984.
Os primeiros anos do Depes somou os fundadores vindos da Cepal: Wilson Cano, Ferdinando Figueiredo, Roberto Gamboa; e de São Paulo: Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello, Carlos Gonçalves, Osmar Marchese e Fausto Castilho. Novas incorporações foram se sucedendo: Éolo Pagnani, Antonio de Castro, Carlos Lessa, Maria da Conceição Tavares e Jorge Miglioli. Mais à frente, vieram Luciano Coutinho, Paulo Baltar, José Carlos Braga, Frederico Mazzuchelli, Carlos Alonso Barbosa Oliveira, Carlos Kurkinewa, Liana Aureliano e Sérgio Silva.
Em “anos de chumbo”, o economista crítico não poderia se constranger à docência e à pesquisa. Avultava, então, o homem público Wilson Cano, assessorando a frente política de oposição; produzindo textos partidários; participando da campanha pelas Eleições Diretas; encabeçando o Movimento de Renovação dos Economistas e apoiando o Fórum Empresarial Gazeta Mercantil.
A economia brasileira e os desequilíbrios regionais do país
Tanto pelos cursos de Economia Brasileira a seu cuidado, quanto pela discussão com os colegas de trabalho, certificava-se que a investigação da “questão regional” era de suma importância. Entregou-se ao estudo aprofundado das raízes fundamentais do processo de concentração industrial em São Paulo e seu papel na dinâmica inter-regional do país. Os resultados dessa investigação de doutorado formaram o livro “Raízes da concentração industrial em São Paulo” (Baixe aqui).
Prosseguindo seu projeto maior, o Prof. Cano passou a estudar a questão regional brasileira, através do exame do processo de integração do mercado nacional, nele destacando-se a análise do setor industrial. Subdividiu o período 1930-1970 em dois subperíodos: 1930-1955, quando se altera o padrão de acumulação de capital e o país ingressa no processo de industrialização “restringida”, e no de 1956-1970, quando o padrão se altera pela implantação dos setores industriais produtores de bens de produção e de consumo durável, a chamada industrialização “pesada”.
Nos anos pós-1930, a integração do mercado nacional se intensificou, de sorte que os diferentes espaços regionais passaram a sofrer a ação de dois movimentos: “o antigo, decorrente da manutenção de uma estrutura primário-exportadora; o novo, decorrente da ação comandada pelo centro dominante nacional, via dominação dos mercados e do processo de acumulação de capital”. Concluía então que, nesta economia agora nacional, não era adequado pensar as economias regionais, enquanto espaços regionalizados, dada a superposição daqueles dois movimentos. Os resultados foram materializados em sua tese de livre-docência e publicada no livro “Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil 1930-1970” (Baixe aqui).
Sempre atento à sua área de pesquisa, o professor Cano completou sua trilogia em 2009, publicando “Desconcentração produtiva regional do Brasil 1970-2005” (Baixe aqui).
Nessa obra ele apresentou como a desconcentração produtiva espacial se manifesta no país, de forma positiva, entre 1970 e 1980, e de forma espúria, a partir dessa data. A obra recebeu o prêmio “Brasil de Economia”, do Conselho Federal de Economia (Cofecon), em 2009.
Seus últimos escritos trataram de temáticas que sintetizam toda a sua carreira intelectual. Desde a coletânea “Ensaios sobre a crise urbana do Brasil”, de 2011, publicado pela Editora da Unicamp; passando pelo balanço crítico da economia brasileira no artigo “Brasil – construção e desconstrução do desenvolvimento” (Baixe aqui), publicado em agosto de 2017 na Revista “Economia e Sociedade”, do IE; e sua última reflexão de fôlego, o artigo “(Des)Industrialização e (Sub)Desenvolvimento” (Baixe aqui), publicado em 2018, nos Cadernos do Desenvolvimento, revista do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.
América Latina, Brasil e a nova ordem internacional
Escreveu Wilson Cano em 1992: “Minhas preocupações com o desenvolvimento econômico brasileiro já estavam presentes durante os anos do ‘Milagre Brasileiro’ (1967-1974) e da tentativa do II PND, pois as excepcionais taxas de crescimento da renda não escondiam, para nós, suas inevitáveis sequelas que a inflação, o desequilíbrio cambial, o endividamento externo e a política salarial causariam à macroeconomia brasileira e à regressiva distribuição da renda do país. A ‘crise da dívida’, a partir de 1979-1983, encarregar-se-ia de explicitar essas sequelas”.
Com a imposição crescente das políticas neoliberais ao país, do governo Collor ao governo de Fernando Henrique Cardoso, o Prof. Cano passou a defender a produção de um consenso político nacional que permitisse a formulação de uma estratégia alternativa para o país. Dizia que era necessária a imediata e simultânea remoção de uma série de constrangimentos internos e externos que impediriam, e impedem, a retomada do crescimento brasileiro com justiça social. Produziu então o longo ensaio “Reflexões para uma política de resgate do atraso social e produtivo do Brasil na década de 1990” (Baixe), de larga repercussão.
Com os acontecimentos políticos europeus entre 1989 e 1991, o Prof. Cano partiu para os Estados Unidos e para a Europa Ocidental, de sorte a estudar, em princípio, as possibilidades da retomada do investimento direto estrangeiro e a expansão das exportações brasileiras. Realizadas meia centena de entrevistas e colhido grande volume de documentos, outros assuntos foram se adicionando como o desemprego elevado, o tratamento da questão regional, o papel das pequenas e médias empresas. Os ensaios decorrentes dessa estadia foram agregados em “Reflexões sobre o Brasil e a nova (desordem) internacional” (Baixe aqui), de 1993.
Em 1997/98, o Prof. Cano coordenou um amplo projeto de estudo sobre o impacto das políticas neoliberais na América Latina. Resultou o alentado volume “Soberania e política econômica na América Latina” (Baixe aqui), onde se encontram informação retrospectiva desde 1930 (até antes) e análise aguda dos anos noventa no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela e Cuba.
A crise brasileira é estrutural
O Prof. Wilson Cano sempre insistiu que a crise brasileira é estrutural, por isso, não pode ser explicada apenas por indicadores abrangentes de alguns poucos anos atrás, mas sim, por processos cruciais que se acumularam desde os anos oitenta do século passado.
Havendo apontado questões graves e restrições fortíssimas ao desenvolvimento nacional, Wilson Cano não deixou de acreditar em soluções para o Brasil, mas sem apelo a políticas que acobertam arraigados interesses patrimonialistas-rentistas. Tendo em vista as circunstâncias internacionais, Wilson Cano só conseguia vislumbrar saídas de médio e longo prazos, feitas com competência técnica, mas sobretudo, muita articulação política. Ele nunca descartou o desafio que se mostrará imperioso no futuro de rompimento do País com várias das amarras impostas pelo regramento internacional.
Nos últimos anos, junto aos colegas do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico (CEDE), vinha mantendo frequente colaboração, participando dos seminários da área de Desenvolvimento Regional e Urbano e ministrando suas aulas de Desenvolvimento Econômico no Programa que leva o mesmo nome desta disciplina na Pós-graduação do IE, além de organizar seu acervo pessoal e intelectual.
Do alto de seus mais de oitenta anos, travando uma luta incessante pela vida, o guerreiro não se abateu. Ofereceu à comunidade acadêmica nacional não só o acesso digitalizado ao acervo de seus livros, artigos, palestras – www.wilsoncano.com.br, como também a possibilidade de interagir com seus leitores. Até seu último dia, manteve-se como um ativo pensador e crítico da realidade econômica brasileira e internacional.
Certamente, ter a oportunidade de conviver com o professor Wilson Cano foi uma imensa honra para gerações de professores, estudantes e funcionários em cinco décadas do Instituto de Economia da Unicamp.
Conteúdo adaptado de texto do professor Claudio Maciel (IE-Unicamp), com apoio de Humberto Miranda (Cede-IE-Unicamp).