Por Giuliano Contento de Oliveira (Prof. Unicamp) e Paulo José Whitaker Wolf (Doutorando Unicamp)
O mundo passou por transformações muito substanciais desde o colapso do sistema de Bretton Woods. A partir de meados dos anos 1970, o fenômeno da globalização ensejou um movimento de progressiva liberalização e desregulamentação dos mercados, redefinindo o sistema global de produção e de circulação do capital entre diferentes países. Evidentemente, tratou-se de um fenômeno assimétrico, na medida em que a inserção das distintas economias na globalização se deu de forma heterogênea e desbalanceada, com os países desenvolvidos sendo os mais beneficiados.
Essas transformações afetaram o dia a dia das empresas e das pessoas, na medida em que a constituição de um mercado global de mercadorias, serviços e capitais (mas, claro, não de pessoas) dinamizou brutalmente a concorrência e modificou o que podemos chamar de “sociabilidade moderna”. Atualmente, para uma empresa, não é possível mais pensar apenas localmente, assim como para os trabalhadores a noção de uma carreira longa em uma única empresa, com reais possibilidades de progressão, já não tem se colocado na mesma escala que no passado.
Efetivamente, seja para governos seja para empresas, exercícios de planejamento e construção de cenários alternativos passaram a tornar indispensável o entendimento crítico e, por isso, multidisciplinar das relações internacionais contemporâneas. Nesse sentido, inclusive, o termo “especialista” para esse profissional deve ser qualificado, na medida em que sua “real especialização” consiste em um esforço permanente de compreender e analisar criticamente os fenômenos contemporâneos internacionais a partir de uma visão verdadeiramente holística.
Nesse sentido, o “especialista” em relações internacionais deve ser capaz de atuar em um contexto marcado pela interdependência, em que nenhum país está imune ao que acontece no resto do mundo a partir da acumulação de um amplo e profundo conhecimento teórico e histórico-institucional. Ao atuar no setor público ou no setor privado, dentro e/ou fora de um país, esse profissional deve ser capaz de compreender os diferentes fatores que influenciam a realidade contemporânea, o que exige sólida formação multidisciplinar e alta capacidade de análise crítica.
O incessante processo de criação de novas tecnologias encurtou distâncias e aproximou países muito diferentes entre si do ponto de vista econômico, social e político, afetando a vida das pessoas e a forma como elas se relacionam. Nesse contexto, o profissional atuante na área de relações internacionais deve ser capaz de criar soluções que permitam a todos ganhar com as oportunidades abertas por esse processo de rápida e pronunciada integração, ciente de que a eliminação das fronteiras aos fluxos de bens, serviços, capitais e mesmo de pessoas não é condição necessária, tampouco suficiente, para assegurar a todos a possibilidade de contribuir e partilhar da riqueza criada. Isso é particularmente importante quando se considera a realidade dos países de inserção subordinada nas relações internacionais contemporâneas, isto é, os países periféricos cuja ciclo de negócios é dependente da dinâmica dos países desenvolvidos.
Nesse sentido, inclusive, não há dúvidas de que o Brasil possui um grande potencial a ser explorado e que deu passos importantes nesse sentido. Entretanto, há ainda muito o que fazer para que o país assuma maior protagonismo nas relações internacionais contemporâneas, condição que requer, entre outros fatores, a existência de profissionais devidamente qualificados e preparados, para que assim possamos avançar nessa frente fundamental para o desenvolvimento.
Cada vez mais, torna-se patente a necessidade de se viabilizar a união de esforços entre governos e instituições, seja no âmbito nacional seja no internacional. Isto é, mostra-se fundamental mais cooperação entre instituições públicas e privadas de diferentes países para assegurar o crescimento econômico, a coesão social, a proteção do meio ambiente e a manutenção da paz, em todos os cantos do planeta. Na prática, isso significa um esforço conjunto em favor do crescimento do emprego e da renda, da eliminação da miséria e da pobreza, da redução das desigualdades, da conservação dos recursos naturais e da cessão dos conflitos, em um ambiente no qual os países mais ricos possam contribuir mais para o desenvolvimento dos países mais pobres.
Por isso, profissionais capazes de liderar esse processo ou mesmo lidar com ele na complexidade exigida são, mais do que nunca, necessários, seja na esfera governamental seja na esfera empresarial. Na primeira, o “especialista” em relações internacionais, no sentido anteriormente aludido, deve promover a tolerância, o respeito e o entendimento mútuo, bem como estimular a negociação e a consolidação de acordos multilaterais em diversos assuntos de interesse comum. Em verdade, a arte da diplomacia de modo algum se restringe aos muros das embaixadas e consulados. Ela deve estar presente em toda e qualquer situação em que se busque construir a unidade na diversidade. Já na segunda, por sua vez, esse profissional deve estar preparado para introduzir os efeitos prováveis de mudanças em curso ou em potencial nos cenários alternativos necessários ao planejamento estratégico organizacional, bem como para liderar planos globais de expansão empresarial.